O que eu posso dar para aumentar a imunidade do meu filho?
Essa é uma pergunta que escuto com muita frequência no consultório, principalmente quando a criança começa a frequentar a escola ou passa por uma fase de resfriados e outras infecções recorrentes.
E a primeira coisa que precisamos entender é: não existe vitamina, xarope ou suplemento capaz de criar uma espécie de “escudo” contra as doenças.
O sistema imunológico da criança amadurece ao longo da infância e seu funcionamento depende de vários fatores. Alimentação adequada, sono, atividade física, vacinação e uma rotina saudável têm muito mais importância do que procurar um produto específico para “aumentar a imunidade”.
Na prática, imunidade não se constrói com uma fórmula mágica. Ela faz parte de um organismo saudável como um todo.
Por isso, separei cinco cuidados que considero importantes na rotina das crianças.
1. Priorize comida de verdade
Não existe uma fruta, vitamina ou alimento isolado capaz de aumentar a imunidade.
O que faz diferença é o conjunto.
Uma alimentação variada fornece proteínas, vitaminas, minerais e outros nutrientes necessários para o crescimento e para o funcionamento adequado do sistema imunológico.
Frutas, verduras, legumes, feijão e outras leguminosas, cereais, carnes, ovos e demais alimentos in natura ou minimamente processados devem formar a base da alimentação.
E aqui existe outro ponto importante: quanto menor a participação dos ultraprocessados na rotina da criança, melhor.
O Ministério da Saúde recomenda que a alimentação infantil seja baseada principalmente em alimentos in natura ou minimamente processados. Para crianças menores de dois anos, a recomendação é ainda mais clara: não oferecer alimentos ultraprocessados e não oferecer açúcar antes dos dois anos.
Então, em vez de procurar “qual alimento aumenta a imunidade?”, talvez a melhor pergunta seja:
“Como está a alimentação do meu filho como um todo?”
2. Sono também é saúde
Sono não é simplesmente o momento em que a criança “desliga”.
Enquanto ela dorme, acontecem processos fundamentais para crescimento, memória, regulação hormonal, metabolismo e funcionamento do sistema imunológico.
Por isso, uma criança que dorme mal de forma persistente pode apresentar irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações de comportamento e pior desempenho durante o dia.
Algumas medidas simples fazem diferença:
- Manter horários relativamente regulares para dormir e acordar;
- Criar um ambiente confortável e tranquilo;
- Diminuir estímulos à noite;
- Evitar telas próximo ao horário de dormir;
- Estabelecer uma rotina previsível antes de ir para a cama.
E quanto uma criança precisa dormir?
Depende da idade. Como referência, a Sociedade Brasileira de Pediatria cita aproximadamente 11 a 14 horas entre 1 e 2 anos, 10 a 13 horas entre 3 e 5 anos, 9 a 12 horas entre 6 e 12 anos e 8 a 10 horas na adolescência, considerando também as sonecas quando aplicável.
Mais importante do que simplesmente contar horas é observar se a criança acorda descansada e funciona bem durante o dia.
3. Não esqueça da água
Água não é um “fortalecedor da imunidade”, e acho importante deixar isso claro.
Mas uma hidratação adequada é necessária para o funcionamento normal do organismo, participa da regulação da temperatura corporal e de diversos processos fisiológicos.
A necessidade varia conforme idade, alimentação, atividade física, temperatura do ambiente e condições de saúde.
Em dias muito quentes ou quando a criança pratica atividade física, essa atenção deve ser ainda maior.
E um hábito simples ajuda muito: ensinar a criança a beber água desde cedo, em vez de deixar que bebidas açucaradas ocupem esse espaço.
4. Criança precisa se movimentar
Correr, pular, brincar, pedalar, nadar, dançar e praticar esportes não são apenas maneiras de “gastar energia”.
São parte de uma infância saudável.
A atividade física regular contribui para a saúde cardiovascular, muscular e óssea, ajuda na prevenção da obesidade e também está relacionada ao bem-estar e à saúde mental.
E não precisa transformar toda criança em atleta.
Para os pequenos, brincar no chão, correr no parque e participar de brincadeiras ativas também contam.
A Organização Mundial da Saúde recomenda bastante movimento ao longo do dia desde os primeiros anos de vida. Entre 5 e 17 anos, a referência é uma média de pelo menos 60 minutos por dia de atividade física moderada a vigorosa ao longo da semana.
A mensagem para os pais é simples:
Menos tempo parado e mais oportunidade para brincar e se movimentar.
5. Vacinação em dia é proteção de verdade
Se existe uma maneira comprovada de preparar o sistema imunológico para enfrentar determinadas doenças, ela se chama vacinação.
As vacinas apresentam ao sistema imunológico antígenos ou instruções relacionadas a determinados agentes infecciosos, permitindo que o organismo desenvolva uma resposta específica e memória imunológica.
Assim, quando ocorre o contato futuro com aquele agente, o organismo está mais preparado para responder.
É diferente da ideia genérica de “aumentar a imunidade”. A vacina desenvolve proteção específica contra determinadas doenças e reduz o risco de formas graves e complicações.
Por isso, a caderneta de vacinação deve ser revisada regularmente.
O calendário muda ao longo dos anos, novas estratégias de prevenção surgem e algumas crianças podem ter indicações específicas.
Na dúvida, leve a caderneta para a consulta pediátrica e peça para conferir.
“Mas meu filho faz tudo isso e continua ficando doente. A imunidade dele está baixa?”
Não necessariamente.
Essa é uma das maiores preocupações dos pais, principalmente quando a criança entra na creche ou na escola.
Nos primeiros anos de vida, as crianças entram em contato com muitos vírus respiratórios e outros agentes infecciosos. Ambientes coletivos aumentam bastante essas oportunidades de exposição.
Por isso, episódios recorrentes de resfriados e outras infecções virais podem acontecer mesmo em crianças perfeitamente saudáveis.
Ter várias infecções comuns ao longo do ano, isoladamente, não significa que a criança tenha uma deficiência do sistema imunológico.
O que precisamos observar é o conjunto: tipo de infecção, frequência, gravidade, duração, necessidade repetida de antibióticos ou internações e, principalmente, como essa criança cresce e se desenvolve.
Preciso dar vitaminas para aumentar a imunidade?
Na maioria das vezes, não existe indicação de utilizar vitaminas ou suplementos simplesmente com o objetivo de “aumentar a imunidade”.
Suplementos podem ser necessários em determinadas fases da infância ou em situações específicas, como deficiências nutricionais, alimentação restritiva, problemas de absorção ou condições clínicas particulares. Algumas suplementações preventivas também podem ser recomendadas de acordo com idade e fatores individuais.
Mas isso é diferente de comprar um produto porque ele promete “aumentar as defesas”.
Inclusive, vitaminas e minerais em excesso também podem causar problemas.
Por isso, minha orientação é simples:
Antes de oferecer vitaminas, minerais, probióticos ou qualquer suplemento com a promessa de melhorar a imunidade, converse com o pediatra.
Quando infecções frequentes merecem investigação?
A maioria das crianças que apresenta infecções respiratórias recorrentes não tem uma imunodeficiência.
Mas existem situações que merecem uma avaliação mais cuidadosa.
Infecções muito graves, incomuns, persistentes ou de repetição; necessidade frequente de antibióticos; internações recorrentes; infecções oportunistas; dificuldade para ganhar peso ou crescer; ou uma história familiar sugestiva são exemplos de situações em que o pediatra pode considerar uma investigação específica.
Aqui existe uma diferença importante:
Uma coisa é uma criança saudável que pega vários resfriados na escola. Outra é uma criança que apresenta infecções graves, atípicas ou associadas a comprometimento do crescimento.
É justamente essa diferenciação que fazemos durante a avaliação pediátrica.
No final, a imunidade começa na rotina
Eu sei que a ideia de encontrar uma vitamina ou um produto capaz de impedir que nossos filhos fiquem doentes é muito atraente.
Mas a ciência não nos oferece esse atalho.
O que sabemos é que uma alimentação adequada, boas noites de sono, hidratação, atividade física, vacinação e acompanhamento pediátrico oferecem ao organismo as condições necessárias para crescer e funcionar de maneira saudável.
Não significa que a criança nunca ficará doente.
Significa que estamos cuidando daquilo que realmente podemos modificar.
E, na minha experiência, esse é um dos principais recados que os pais precisam ouvir:
Antes de procurar alguma coisa para “aumentar a imunidade”, olhe para a rotina da criança.
Na maioria das vezes, é nela que começa o cuidado.
Referências
Sociedade Brasileira de Pediatria. Calendário de Vacinação da SBP — Atualização 2026/2027.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Sono. Privação de sono na população pediátrica. Atualização 2025.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Suplementos alimentares em pediatria: quando indicar? 2025.
Ministério da Saúde. Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos.
Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação 2026.
World Health Organization. Guidelines on Physical Activity, Sedentary Behaviour and Sleep for Children Under 5 Years of Age.
World Health Organization. Guidelines on Physical Activity and Sedentary Behaviour.,0

