Dr. Sebastião Ferreira | CRM 11294 PA | Pediatria RQE 6090

Dr. Sebastião Ferreira | CRM 11294 PA | Pediatria RQE 6090

5 hábitos que ajudam a cuidar da imunidade infantil

O que eu posso dar para aumentar a imunidade do meu filho?

Essa é uma pergunta que escuto com muita frequência no consultório, principalmente quando a criança começa a frequentar a escola ou passa por uma fase de resfriados e outras infecções recorrentes.

E a primeira coisa que precisamos entender é: não existe vitamina, xarope ou suplemento capaz de criar uma espécie de “escudo” contra as doenças.

O sistema imunológico da criança amadurece ao longo da infância e seu funcionamento depende de vários fatores. Alimentação adequada, sono, atividade física, vacinação e uma rotina saudável têm muito mais importância do que procurar um produto específico para “aumentar a imunidade”.

Na prática, imunidade não se constrói com uma fórmula mágica. Ela faz parte de um organismo saudável como um todo.

Por isso, separei cinco cuidados que considero importantes na rotina das crianças.

1. Priorize comida de verdade

Não existe uma fruta, vitamina ou alimento isolado capaz de aumentar a imunidade.

O que faz diferença é o conjunto.

Uma alimentação variada fornece proteínas, vitaminas, minerais e outros nutrientes necessários para o crescimento e para o funcionamento adequado do sistema imunológico.

Frutas, verduras, legumes, feijão e outras leguminosas, cereais, carnes, ovos e demais alimentos in natura ou minimamente processados devem formar a base da alimentação.

E aqui existe outro ponto importante: quanto menor a participação dos ultraprocessados na rotina da criança, melhor.

O Ministério da Saúde recomenda que a alimentação infantil seja baseada principalmente em alimentos in natura ou minimamente processados. Para crianças menores de dois anos, a recomendação é ainda mais clara: não oferecer alimentos ultraprocessados e não oferecer açúcar antes dos dois anos.

Então, em vez de procurar “qual alimento aumenta a imunidade?”, talvez a melhor pergunta seja:

“Como está a alimentação do meu filho como um todo?”

2. Sono também é saúde

Sono não é simplesmente o momento em que a criança “desliga”.

Enquanto ela dorme, acontecem processos fundamentais para crescimento, memória, regulação hormonal, metabolismo e funcionamento do sistema imunológico.

Por isso, uma criança que dorme mal de forma persistente pode apresentar irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações de comportamento e pior desempenho durante o dia.

Algumas medidas simples fazem diferença:

  • Manter horários relativamente regulares para dormir e acordar;
  • Criar um ambiente confortável e tranquilo;
  • Diminuir estímulos à noite;
  • Evitar telas próximo ao horário de dormir;
  • Estabelecer uma rotina previsível antes de ir para a cama.

E quanto uma criança precisa dormir?

Depende da idade. Como referência, a Sociedade Brasileira de Pediatria cita aproximadamente 11 a 14 horas entre 1 e 2 anos, 10 a 13 horas entre 3 e 5 anos, 9 a 12 horas entre 6 e 12 anos e 8 a 10 horas na adolescência, considerando também as sonecas quando aplicável.

Mais importante do que simplesmente contar horas é observar se a criança acorda descansada e funciona bem durante o dia.

3. Não esqueça da água

Água não é um “fortalecedor da imunidade”, e acho importante deixar isso claro.

Mas uma hidratação adequada é necessária para o funcionamento normal do organismo, participa da regulação da temperatura corporal e de diversos processos fisiológicos.

A necessidade varia conforme idade, alimentação, atividade física, temperatura do ambiente e condições de saúde.

Em dias muito quentes ou quando a criança pratica atividade física, essa atenção deve ser ainda maior.

E um hábito simples ajuda muito: ensinar a criança a beber água desde cedo, em vez de deixar que bebidas açucaradas ocupem esse espaço.

4. Criança precisa se movimentar

Correr, pular, brincar, pedalar, nadar, dançar e praticar esportes não são apenas maneiras de “gastar energia”.

São parte de uma infância saudável.

A atividade física regular contribui para a saúde cardiovascular, muscular e óssea, ajuda na prevenção da obesidade e também está relacionada ao bem-estar e à saúde mental.

E não precisa transformar toda criança em atleta.

Para os pequenos, brincar no chão, correr no parque e participar de brincadeiras ativas também contam.

A Organização Mundial da Saúde recomenda bastante movimento ao longo do dia desde os primeiros anos de vida. Entre 5 e 17 anos, a referência é uma média de pelo menos 60 minutos por dia de atividade física moderada a vigorosa ao longo da semana.

A mensagem para os pais é simples:

Menos tempo parado e mais oportunidade para brincar e se movimentar.

5. Vacinação em dia é proteção de verdade

Se existe uma maneira comprovada de preparar o sistema imunológico para enfrentar determinadas doenças, ela se chama vacinação.

As vacinas apresentam ao sistema imunológico antígenos ou instruções relacionadas a determinados agentes infecciosos, permitindo que o organismo desenvolva uma resposta específica e memória imunológica.

Assim, quando ocorre o contato futuro com aquele agente, o organismo está mais preparado para responder.

É diferente da ideia genérica de “aumentar a imunidade”. A vacina desenvolve proteção específica contra determinadas doenças e reduz o risco de formas graves e complicações.

Por isso, a caderneta de vacinação deve ser revisada regularmente.

O calendário muda ao longo dos anos, novas estratégias de prevenção surgem e algumas crianças podem ter indicações específicas.

Na dúvida, leve a caderneta para a consulta pediátrica e peça para conferir.

“Mas meu filho faz tudo isso e continua ficando doente. A imunidade dele está baixa?”

Não necessariamente.

Essa é uma das maiores preocupações dos pais, principalmente quando a criança entra na creche ou na escola.

Nos primeiros anos de vida, as crianças entram em contato com muitos vírus respiratórios e outros agentes infecciosos. Ambientes coletivos aumentam bastante essas oportunidades de exposição.

Por isso, episódios recorrentes de resfriados e outras infecções virais podem acontecer mesmo em crianças perfeitamente saudáveis.

Ter várias infecções comuns ao longo do ano, isoladamente, não significa que a criança tenha uma deficiência do sistema imunológico.

O que precisamos observar é o conjunto: tipo de infecção, frequência, gravidade, duração, necessidade repetida de antibióticos ou internações e, principalmente, como essa criança cresce e se desenvolve.

Preciso dar vitaminas para aumentar a imunidade?

Na maioria das vezes, não existe indicação de utilizar vitaminas ou suplementos simplesmente com o objetivo de “aumentar a imunidade”.

Suplementos podem ser necessários em determinadas fases da infância ou em situações específicas, como deficiências nutricionais, alimentação restritiva, problemas de absorção ou condições clínicas particulares. Algumas suplementações preventivas também podem ser recomendadas de acordo com idade e fatores individuais.

Mas isso é diferente de comprar um produto porque ele promete “aumentar as defesas”.

Inclusive, vitaminas e minerais em excesso também podem causar problemas.

Por isso, minha orientação é simples:

Antes de oferecer vitaminas, minerais, probióticos ou qualquer suplemento com a promessa de melhorar a imunidade, converse com o pediatra.

Quando infecções frequentes merecem investigação?

A maioria das crianças que apresenta infecções respiratórias recorrentes não tem uma imunodeficiência.

Mas existem situações que merecem uma avaliação mais cuidadosa.

Infecções muito graves, incomuns, persistentes ou de repetição; necessidade frequente de antibióticos; internações recorrentes; infecções oportunistas; dificuldade para ganhar peso ou crescer; ou uma história familiar sugestiva são exemplos de situações em que o pediatra pode considerar uma investigação específica.

Aqui existe uma diferença importante:

Uma coisa é uma criança saudável que pega vários resfriados na escola. Outra é uma criança que apresenta infecções graves, atípicas ou associadas a comprometimento do crescimento.

É justamente essa diferenciação que fazemos durante a avaliação pediátrica.

No final, a imunidade começa na rotina

Eu sei que a ideia de encontrar uma vitamina ou um produto capaz de impedir que nossos filhos fiquem doentes é muito atraente.

Mas a ciência não nos oferece esse atalho.

O que sabemos é que uma alimentação adequada, boas noites de sono, hidratação, atividade física, vacinação e acompanhamento pediátrico oferecem ao organismo as condições necessárias para crescer e funcionar de maneira saudável.

Não significa que a criança nunca ficará doente.

Significa que estamos cuidando daquilo que realmente podemos modificar.

E, na minha experiência, esse é um dos principais recados que os pais precisam ouvir:

Antes de procurar alguma coisa para “aumentar a imunidade”, olhe para a rotina da criança.

Na maioria das vezes, é nela que começa o cuidado.

Referências

Sociedade Brasileira de Pediatria. Calendário de Vacinação da SBP — Atualização 2026/2027.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Sono. Privação de sono na população pediátrica. Atualização 2025.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Suplementos alimentares em pediatria: quando indicar? 2025.

Ministério da Saúde. Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos.

Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação 2026.

World Health Organization. Guidelines on Physical Activity, Sedentary Behaviour and Sleep for Children Under 5 Years of Age.

World Health Organization. Guidelines on Physical Activity and Sedentary Behaviour.,0

Atividade Física na Infância

Movimento faz parte da infância. Mais do que praticar esportes, correr, brincar, pular e explorar o mundo são fundamentais para o crescimento físico, emocional e intelectual das crianças. A seguir, respondo às dúvidas mais comuns dos pais sobre o tema.

Meu filho realmente precisa fazer atividade física todos os dias?

Sim. Assim como uma boa alimentação e um sono de qualidade, o movimento faz parte dos pilares do desenvolvimento infantil. A atividade física fortalece o corpo, estimula o cérebro e ajuda a criar hábitos saudáveis que podem acompanhar a criança por toda a vida.

Precisa ser um esporte?

Não. Essa é uma das maiores dúvidas dos pais. Brincadeiras como pega-pega, esconde-esconde, bicicleta, bola, natação, dança ou simplesmente brincar no parque já oferecem enormes benefícios. Na infância, brincar também é atividade física.

Quais são os benefícios para o corpo?

Quando a criança corre, pula, escala ou pedala, ela fortalece músculos e ossos, melhora a coordenação motora, o equilíbrio, a agilidade e a resistência física. Também reduz o risco de obesidade e de doenças como hipertensão e diabetes no futuro.

A atividade física também ajuda o cérebro?

Sim, e muito. Crianças fisicamente ativas costumam apresentar melhor atenção, memória, concentração e desempenho escolar. Além disso, atividades que envolvem regras e interação ajudam no desenvolvimento do raciocínio, da criatividade e da resolução de problemas.

Ela faz diferença na saúde emocional?

Faz. O movimento contribui para reduzir ansiedade, melhorar o humor, fortalecer a autoestima e desenvolver habilidades como cooperação, disciplina e respeito às regras.

Qual a relação entre atividade física e telas?

A atualização de 2026 da Sociedade Brasileira de Pediatria reforça que reduzir o tempo excessivo de telas e aumentar as oportunidades de movimento são estratégias complementares para um desenvolvimento saudável. Menos tempo sentado e mais tempo brincando significam mais saúde.

Quanto tempo de atividade física é recomendado?

De forma geral, crianças e adolescentes devem acumular pelo menos 60 minutos por dia de atividade física de intensidade moderada a vigorosa. Esse tempo pode ser dividido ao longo do dia. Também é importante incluir atividades que fortaleçam músculos e ossos, como correr, saltar e escalar, pelo menos três vezes por semana.

A atividade física melhora o sono?

Sim. Crianças que se movimentam regularmente costumam dormir melhor, apresentam um sono mais profundo e acordam mais descansadas. Dormir bem também favorece o crescimento e o aprendizado.

Como os pais podem incentivar esse hábito?

As crianças aprendem muito mais pelo exemplo do que pelo discurso. Caminhar em família, brincar no parque, passear de bicicleta e reduzir o tempo de telas dos próprios adultos são atitudes que fazem diferença.

Quando procurar o pediatra antes de iniciar um esporte?

Na maioria dos casos, crianças saudáveis podem praticar atividade física normalmente. Porém, antes de esportes competitivos ou quando existem doenças crônicas, sintomas durante o exercício ou histórico familiar de doenças cardíacas, vale conversar com o pediatra para uma avaliação individualizada.

Conclusão

Na infância, movimento é sinônimo de desenvolvimento. Cada corrida, cada brincadeira e cada passeio ao ar livre ajudam a construir um corpo mais saudável, um cérebro mais ativo e uma infância mais feliz. Incentivar a criança a se movimentar é um investimento que traz benefícios para toda a vida.

Febre em crianças: quando se preocupar e o que os pais devem fazer

A febre é um dos motivos mais frequentes de preocupação entre os pais. Basta o termômetro marcar uma temperatura mais alta para surgirem dúvidas: será que é grave?

Preciso correr para o hospital? Tenho que baixar a febre imediatamente? A boa notícia é que, na maioria das vezes, a febre faz parte da resposta natural do organismo contra infecções, principalmente as causadas por vírus. Saber interpretá-la e observar a criança como um todo ajuda a enfrentar esse momento com mais segurança.

O que é a febre?

A febre não é uma doença, mas um sinal de que o organismo está reagindo a algum processo, geralmente uma infecção. Ela acontece porque o centro regulador da temperatura, localizado no cérebro, eleva temporariamente a temperatura corporal como parte da resposta do sistema imunológico contra vírus, bactérias e outros agentes infecciosos.

Na prática, considera-se febre quando a temperatura está elevada de acordo com o local de aferição. Segundo o consenso mais recente da Sociedade Brasileira de Pediatria, temperaturas axilares a partir de 37,5 °C já podem justificar o uso de antitérmico quando a criança apresenta desconforto clínico.

Mais importante do que o número do termômetro é avaliar como a criança está. Uma criança com 38,5 °C brincando, hidratando-se e interagindo costuma preocupar menos do que outra com temperatura mais baixa, mas muito abatida, sonolenta ou com dificuldade para respirar.

Por que as crianças têm febre com tanta frequência?

Nos primeiros anos de vida, o sistema imunológico ainda está amadurecendo. Por isso, é comum que as crianças tenham contato frequente com diferentes vírus e bactérias, principalmente quando começam a frequentar creches e escolas.

Resfriados, gripes, otites, amigdalites e gastroenterites estão entre as causas mais comuns de febre. Felizmente, a maioria desses quadros é benigna e melhora apenas com hidratação, repouso e acompanhamento adequado.

A febre faz mal?

Essa é uma das maiores dúvidas dos pais. A resposta é: na imensa maioria das vezes, não. A febre decorrente de infecções comuns não causa lesão cerebral. O principal objetivo do tratamento não é normalizar o número do termômetro, mas aliviar o desconforto da criança.

Se ela está prostrada, irritada, com dor ou sem conseguir descansar, o pediatra poderá orientar o uso de antitérmicos. Eles são indicados para melhorar o bem-estar, e não apenas para reduzir a temperatura.

Também é importante lembrar que febre alta não significa necessariamente doença grave. Da mesma forma, doenças potencialmente sérias podem cursar com febre baixa ou até sem febre. Por isso, sempre digo aos pais: olhem primeiro para a criança e depois para o termômetro.

Como medir corretamente?

Prefira termômetros digitais e siga as orientações do fabricante quanto ao local da aferição. Evite medir a temperatura logo após banho quente, atividade física intensa ou quando a criança estiver muito agasalhada, pois essas situações podem interferir temporariamente no resultado.

O que fazer quando a criança está com febre?

Ofereça líquidos com frequência, mantenha roupas leves, deixe o ambiente agradável e incentive o repouso. Se houver desconforto, utilize o antitérmico prescrito pelo pediatra na dose correta para a idade e o peso.

Evite alternar medicamentos por conta própria. Banho morno pode proporcionar conforto em alguns casos, mas banho frio e álcool sobre a pele não são recomendados.

Vale lembrar que grande parte das febres na infância é causada por vírus. Nesses casos, antibióticos não trazem benefício e só devem ser utilizados quando houver indicação médica.

Quando procurar atendimento médico?

Procure avaliação imediata se o bebê tiver menos de três meses e apresentar febre; se houver dificuldade para respirar, convulsão, sonolência excessiva, manchas na pele, sinais de desidratação, dor intensa, recusa persistente de líquidos ou se a febre persistir por vários dias ou retornar após um período de melhora.

Convulsão febril

Embora assuste bastante, a convulsão febril costuma ser benigna e ocorre principalmente entre seis meses e cinco anos de idade. Na maioria das vezes dura poucos minutos e não significa que a criança tenha epilepsia.

Durante o episódio, mantenha a calma, coloque a criança de lado, afaste objetos que possam machucá-la e procure atendimento médico, especialmente se for a primeira convulsão ou se o episódio tiver características incomuns.

Uma mensagem para os pais

A febre faz parte da infância e, na maior parte das vezes, representa apenas que o organismo está trabalhando para combater uma infecção. O termômetro fornece uma informação importante, mas nunca deve ser analisado isoladamente.

O comportamento da criança, sua hidratação, sua disposição e a evolução do quadro são muito mais importantes na tomada de decisão. Em caso de dúvida, procure sempre o pediatra. Informação de qualidade e acompanhamento adequado são as melhores ferramentas para cuidar da saúde das crianças com tranquilidade.

Uso de telas na infância e adolescência

Celulares, tablets, computadores, televisores e videogames fazem parte da rotina das nossas famílias. Eles facilitam a comunicação, ajudam no aprendizado e também podem ser uma forma de diversão.

Mas essa é uma das perguntas que mais escuto no consultório:

“Doutor, meu filho está usando muita tela?”

A resposta não depende apenas do relógio.

Na verdade, o problema não é a tecnologia. O problema é quando ela começa a ocupar o espaço de coisas que nenhuma tela consegue substituir: brincar, correr, conversar, explorar o ambiente, conviver com a família e dormir bem.

Quando existe equilíbrio, a tecnologia pode ser uma aliada. Quando passa dos limites, pode interferir no desenvolvimento, no comportamento e na saúde da criança.

O que dizem as recomendações mais recentes da SBP?

Em 2026, a Sociedade Brasileira de Pediatria publicou uma atualização importante sobre o uso saudável de telas, tecnologias e mídias em creches, berçários e escolas.

A principal mensagem do documento é muito clara: a tecnologia pode fazer parte da educação, mas nunca deve substituir aquilo que é essencial para o desenvolvimento infantil.

Em sintonia com a Lei nº 15.100/2025, a recomendação é restringir o uso de celulares nas escolas — inclusive durante recreios e intervalos — às situações em que exista uma finalidade pedagógica clara e justificada. O objetivo é reduzir distrações, proteger a atenção e favorecer o aprendizado.

Para as crianças menores, especialmente na primeira infância, dos 0 aos 5 anos, a orientação é priorizar aquilo que realmente impulsiona o desenvolvimento: brincar, conversar, ouvir histórias, explorar o ambiente e interagir com outras pessoas.

A exposição excessiva às telas nessa fase pode estar associada a prejuízos no desenvolvimento da linguagem e das funções executivas, que incluem atenção, autocontrole, planejamento e capacidade de resolver problemas.

Isso não significa excluir completamente a tecnologia da infância. Quando utilizada com supervisão, intencionalidade e objetivos pedagógicos claros, ela pode ser uma ferramenta útil. O mais importante é que nunca comprometa pilares fundamentais da saúde, como o sono, a atividade física, as brincadeiras e as interações sociais presenciais.

Por que o excesso de telas preocupa os pediatras?

Nos primeiros anos de vida, o cérebro da criança passa por um desenvolvimento intenso.

É brincando, correndo, desenhando, ouvindo histórias, montando brinquedos e conversando que ela aprende. Essas experiências estimulam diferentes áreas do cérebro ao mesmo tempo e são fundamentais para o desenvolvimento da linguagem, da criatividade, da coordenação motora, da atenção e das habilidades sociais.

Quando grande parte do tempo livre é ocupada pelas telas, essas oportunidades diminuem.

Na adolescência, os desafios mudam. O excesso de celulares e redes sociais pode prejudicar o sono, a concentração, o rendimento escolar, a autoestima e até a saúde mental.

Por isso, o objetivo não deve ser eliminar a tecnologia da rotina, mas ensinar crianças e adolescentes a utilizá-la com equilíbrio.

Quais problemas o excesso de telas pode causar?

Nem toda criança que usa telas apresentará problemas. Mas, quando o tempo de exposição é excessivo ou começa a substituir atividades importantes, alguns sinais podem aparecer:

  • dificuldade para dormir;
  • irritabilidade;
  • dificuldade de concentração;
  • queda no rendimento escolar;
  • sedentarismo;
  • maior risco de sobrepeso e obesidade;
  • dores posturais e cansaço visual;
  • perda do interesse por brincadeiras;
  • menor convivência com a família;
  • dificuldade para controlar o tempo de uso dos aparelhos.

Mais importante do que contar horas é observar se a tela está ocupando o espaço de atividades essenciais para um desenvolvimento saudável.

O sono costuma ser o primeiro prejudicado

Muitos pais acreditam que deixar a criança assistir a um desenho ou usar o celular antes de dormir ajuda a relaxar. Na prática, muitas vezes acontece exatamente o contrário.

A luz emitida pelas telas pode atrasar a produção de melatonina, hormônio que ajuda a preparar o organismo para o sono. Além disso, vídeos, jogos e redes sociais mantêm o cérebro em estado de alerta justamente quando ele deveria começar a desacelerar.

O resultado pode ser uma criança que demora mais para dormir, acorda durante a noite ou desperta cansada no dia seguinte.

E dormir mal afeta praticamente tudo: humor, memória, aprendizado, concentração e comportamento.

Nenhuma tela substitui experiências reais

Nos primeiros anos de vida, o aprendizado acontece principalmente através da interação com o mundo. Brincadeiras ao ar livre, leitura compartilhada, jogos de montar, desenho, pintura, esportes e conversas em família estimulam o cérebro de uma forma que nenhuma tela consegue reproduzir.

Mesmo aplicativos educativos não substituem a interação humana, que continua sendo fundamental para o desenvolvimento da linguagem, da comunicação e das habilidades sociais.

E os adolescentes?

As redes sociais fazem parte da vida dos adolescentes e também podem trazer benefícios, como acesso à informação e facilidade de comunicação.

Mas elas aumentam a exposição à comparação constante, à busca por aprovação, ao cyberbullying e à pressão para estar sempre conectado.

Outro ponto importante é que o excesso de notificações e estímulos rápidos pode tornar mais difícil lidar com o tédio, manter a concentração e controlar o tempo de uso do celular.

Por isso, mais do que apenas fiscalizar, os pais precisam participar da vida digital dos filhos, conversar sobre segurança na internet e manter um diálogo aberto.

Quanto tempo de tela é recomendado?

Até 2 anos

Evitar telas, exceto em chamadas de vídeo com familiares.

Entre 2 e 5 anos

  • Pouco tempo de tela.
  • Conteúdo adequado para a idade.
  • Sempre com acompanhamento de um adulto.

Acima de 5 anos e adolescentes

Não existe um número mágico que sirva para todas as crianças. O mais importante é garantir tempo suficiente para:

  • brincar;
  • praticar atividade física;
  • estudar;
  • conviver com a família;
  • dormir adequadamente.

Como colocar limites sem transformar isso em uma guerra?

Algumas atitudes ajudam bastante:

  • estabeleça horários para o uso dos aparelhos;
  • evite telas durante as refeições;
  • retire celulares e tablets do quarto na hora de dormir;
  • incentive brincadeiras, leitura, esportes e atividades ao ar livre;
  • acompanhe o conteúdo que seu filho consome;
  • converse sobre os riscos da internet de acordo com a idade;
  • dê o exemplo.

As crianças aprendem muito mais pelo exemplo do que pelos discursos.

Se toda a família cria momentos livres de telas, fica muito mais fácil estabelecer hábitos saudáveis.

Situações comuns no consultório

“Doutor, meu filho só come assistindo a um desenho.”

Quando a tela passa a ser necessária para a criança aceitar a refeição, ela deixa de prestar atenção nos sinais de fome e saciedade. A refeição perde seu papel de aprendizado, convivência e descoberta de novos alimentos.

“Ele fica muito nervoso quando eu peço o celular.”

Uma irritação ocasional pode acontecer, especialmente quando os limites ainda estão sendo construídos. Mas reações muito intensas, frequentes e acompanhadas de perda de interesse por outras atividades merecem atenção.

“Meu filho não sabe mais brincar sozinho.”

A criança também precisa aprender a lidar com momentos de tédio. É justamente nesses momentos que surgem a imaginação, a criatividade e a capacidade de criar as próprias brincadeiras.

Quando é hora de procurar ajuda?

Vale conversar com o pediatra quando a criança ou o adolescente:

  • fica muito irritado ao desligar o aparelho;
  • perde o interesse por brincadeiras ou atividades de que gostava;
  • passa a dormir mal;
  • apresenta queda no rendimento escolar;
  • prefere ficar isolado usando o celular, tablet ou videogame;
  • deixa de realizar atividades importantes para permanecer conectado.

Cada criança tem uma rotina e necessidades diferentes. Por isso, a avaliação individualizada continua sendo a melhor forma de orientar cada família.

O equilíbrio é o melhor caminho

A tecnologia veio para ficar, e isso não é um problema.

O nosso desafio como pais não é criar filhos longe das telas, mas ensinar nossos filhos a usá-las com equilíbrio.

Quando a criança brinca, corre, conversa, lê, pratica atividade física, dorme bem e convive com a família, a tela deixa de ser a protagonista e passa a ocupar apenas o lugar que realmente deveria ter.

O celular está acrescentando algo à rotina do meu filho ou está substituindo aquilo que ele mais precisa viver?

Essa é uma pergunta simples, mas costuma ajudar os pais a encontrar o equilíbrio.

Se você percebe que o uso de telas está interferindo no sono, no comportamento, no aprendizado ou no desenvolvimento do seu filho, converse com o pediatra. A orientação individualizada é sempre o melhor caminho.