Celulares, tablets, computadores, televisores e videogames fazem parte da rotina das nossas famílias. Eles facilitam a comunicação, ajudam no aprendizado e também podem ser uma forma de diversão.
Mas essa é uma das perguntas que mais escuto no consultório:
“Doutor, meu filho está usando muita tela?”
A resposta não depende apenas do relógio.
Na verdade, o problema não é a tecnologia. O problema é quando ela começa a ocupar o espaço de coisas que nenhuma tela consegue substituir: brincar, correr, conversar, explorar o ambiente, conviver com a família e dormir bem.
Quando existe equilíbrio, a tecnologia pode ser uma aliada. Quando passa dos limites, pode interferir no desenvolvimento, no comportamento e na saúde da criança.
O que dizem as recomendações mais recentes da SBP?
Em 2026, a Sociedade Brasileira de Pediatria publicou uma atualização importante sobre o uso saudável de telas, tecnologias e mídias em creches, berçários e escolas.
A principal mensagem do documento é muito clara: a tecnologia pode fazer parte da educação, mas nunca deve substituir aquilo que é essencial para o desenvolvimento infantil.
Em sintonia com a Lei nº 15.100/2025, a recomendação é restringir o uso de celulares nas escolas — inclusive durante recreios e intervalos — às situações em que exista uma finalidade pedagógica clara e justificada. O objetivo é reduzir distrações, proteger a atenção e favorecer o aprendizado.
Para as crianças menores, especialmente na primeira infância, dos 0 aos 5 anos, a orientação é priorizar aquilo que realmente impulsiona o desenvolvimento: brincar, conversar, ouvir histórias, explorar o ambiente e interagir com outras pessoas.
A exposição excessiva às telas nessa fase pode estar associada a prejuízos no desenvolvimento da linguagem e das funções executivas, que incluem atenção, autocontrole, planejamento e capacidade de resolver problemas.
Isso não significa excluir completamente a tecnologia da infância. Quando utilizada com supervisão, intencionalidade e objetivos pedagógicos claros, ela pode ser uma ferramenta útil. O mais importante é que nunca comprometa pilares fundamentais da saúde, como o sono, a atividade física, as brincadeiras e as interações sociais presenciais.
Por que o excesso de telas preocupa os pediatras?
Nos primeiros anos de vida, o cérebro da criança passa por um desenvolvimento intenso.
É brincando, correndo, desenhando, ouvindo histórias, montando brinquedos e conversando que ela aprende. Essas experiências estimulam diferentes áreas do cérebro ao mesmo tempo e são fundamentais para o desenvolvimento da linguagem, da criatividade, da coordenação motora, da atenção e das habilidades sociais.
Quando grande parte do tempo livre é ocupada pelas telas, essas oportunidades diminuem.
Na adolescência, os desafios mudam. O excesso de celulares e redes sociais pode prejudicar o sono, a concentração, o rendimento escolar, a autoestima e até a saúde mental.
Por isso, o objetivo não deve ser eliminar a tecnologia da rotina, mas ensinar crianças e adolescentes a utilizá-la com equilíbrio.
Quais problemas o excesso de telas pode causar?
Nem toda criança que usa telas apresentará problemas. Mas, quando o tempo de exposição é excessivo ou começa a substituir atividades importantes, alguns sinais podem aparecer:
- dificuldade para dormir;
- irritabilidade;
- dificuldade de concentração;
- queda no rendimento escolar;
- sedentarismo;
- maior risco de sobrepeso e obesidade;
- dores posturais e cansaço visual;
- perda do interesse por brincadeiras;
- menor convivência com a família;
- dificuldade para controlar o tempo de uso dos aparelhos.
Mais importante do que contar horas é observar se a tela está ocupando o espaço de atividades essenciais para um desenvolvimento saudável.
O sono costuma ser o primeiro prejudicado
Muitos pais acreditam que deixar a criança assistir a um desenho ou usar o celular antes de dormir ajuda a relaxar. Na prática, muitas vezes acontece exatamente o contrário.
A luz emitida pelas telas pode atrasar a produção de melatonina, hormônio que ajuda a preparar o organismo para o sono. Além disso, vídeos, jogos e redes sociais mantêm o cérebro em estado de alerta justamente quando ele deveria começar a desacelerar.
O resultado pode ser uma criança que demora mais para dormir, acorda durante a noite ou desperta cansada no dia seguinte.
E dormir mal afeta praticamente tudo: humor, memória, aprendizado, concentração e comportamento.
Nenhuma tela substitui experiências reais
Nos primeiros anos de vida, o aprendizado acontece principalmente através da interação com o mundo. Brincadeiras ao ar livre, leitura compartilhada, jogos de montar, desenho, pintura, esportes e conversas em família estimulam o cérebro de uma forma que nenhuma tela consegue reproduzir.
Mesmo aplicativos educativos não substituem a interação humana, que continua sendo fundamental para o desenvolvimento da linguagem, da comunicação e das habilidades sociais.
E os adolescentes?
As redes sociais fazem parte da vida dos adolescentes e também podem trazer benefícios, como acesso à informação e facilidade de comunicação.
Mas elas aumentam a exposição à comparação constante, à busca por aprovação, ao cyberbullying e à pressão para estar sempre conectado.
Outro ponto importante é que o excesso de notificações e estímulos rápidos pode tornar mais difícil lidar com o tédio, manter a concentração e controlar o tempo de uso do celular.
Por isso, mais do que apenas fiscalizar, os pais precisam participar da vida digital dos filhos, conversar sobre segurança na internet e manter um diálogo aberto.
Quanto tempo de tela é recomendado?
Até 2 anos
Evitar telas, exceto em chamadas de vídeo com familiares.
Entre 2 e 5 anos
- Pouco tempo de tela.
- Conteúdo adequado para a idade.
- Sempre com acompanhamento de um adulto.
Acima de 5 anos e adolescentes
Não existe um número mágico que sirva para todas as crianças. O mais importante é garantir tempo suficiente para:
- brincar;
- praticar atividade física;
- estudar;
- conviver com a família;
- dormir adequadamente.
Como colocar limites sem transformar isso em uma guerra?
Algumas atitudes ajudam bastante:
- estabeleça horários para o uso dos aparelhos;
- evite telas durante as refeições;
- retire celulares e tablets do quarto na hora de dormir;
- incentive brincadeiras, leitura, esportes e atividades ao ar livre;
- acompanhe o conteúdo que seu filho consome;
- converse sobre os riscos da internet de acordo com a idade;
- dê o exemplo.
As crianças aprendem muito mais pelo exemplo do que pelos discursos.
Se toda a família cria momentos livres de telas, fica muito mais fácil estabelecer hábitos saudáveis.
Situações comuns no consultório
“Doutor, meu filho só come assistindo a um desenho.”
Quando a tela passa a ser necessária para a criança aceitar a refeição, ela deixa de prestar atenção nos sinais de fome e saciedade. A refeição perde seu papel de aprendizado, convivência e descoberta de novos alimentos.
“Ele fica muito nervoso quando eu peço o celular.”
Uma irritação ocasional pode acontecer, especialmente quando os limites ainda estão sendo construídos. Mas reações muito intensas, frequentes e acompanhadas de perda de interesse por outras atividades merecem atenção.
“Meu filho não sabe mais brincar sozinho.”
A criança também precisa aprender a lidar com momentos de tédio. É justamente nesses momentos que surgem a imaginação, a criatividade e a capacidade de criar as próprias brincadeiras.
Quando é hora de procurar ajuda?
Vale conversar com o pediatra quando a criança ou o adolescente:
- fica muito irritado ao desligar o aparelho;
- perde o interesse por brincadeiras ou atividades de que gostava;
- passa a dormir mal;
- apresenta queda no rendimento escolar;
- prefere ficar isolado usando o celular, tablet ou videogame;
- deixa de realizar atividades importantes para permanecer conectado.
Cada criança tem uma rotina e necessidades diferentes. Por isso, a avaliação individualizada continua sendo a melhor forma de orientar cada família.
O equilíbrio é o melhor caminho
A tecnologia veio para ficar, e isso não é um problema.
O nosso desafio como pais não é criar filhos longe das telas, mas ensinar nossos filhos a usá-las com equilíbrio.
Quando a criança brinca, corre, conversa, lê, pratica atividade física, dorme bem e convive com a família, a tela deixa de ser a protagonista e passa a ocupar apenas o lugar que realmente deveria ter.
O celular está acrescentando algo à rotina do meu filho ou está substituindo aquilo que ele mais precisa viver?
Essa é uma pergunta simples, mas costuma ajudar os pais a encontrar o equilíbrio.
Se você percebe que o uso de telas está interferindo no sono, no comportamento, no aprendizado ou no desenvolvimento do seu filho, converse com o pediatra. A orientação individualizada é sempre o melhor caminho.

