Dr. Sebastião Ferreira | CRM 11294 PA | Pediatria RQE 6090

Dr. Sebastião Ferreira | CRM 11294 PA | Pediatria RQE 6090

Uso de telas na infância e adolescência

Celulares, tablets, computadores, televisores e videogames fazem parte da rotina das nossas famílias. Eles facilitam a comunicação, ajudam no aprendizado e também podem ser uma forma de diversão.

Mas essa é uma das perguntas que mais escuto no consultório:

“Doutor, meu filho está usando muita tela?”

A resposta não depende apenas do relógio.

Na verdade, o problema não é a tecnologia. O problema é quando ela começa a ocupar o espaço de coisas que nenhuma tela consegue substituir: brincar, correr, conversar, explorar o ambiente, conviver com a família e dormir bem.

Quando existe equilíbrio, a tecnologia pode ser uma aliada. Quando passa dos limites, pode interferir no desenvolvimento, no comportamento e na saúde da criança.

O que dizem as recomendações mais recentes da SBP?

Em 2026, a Sociedade Brasileira de Pediatria publicou uma atualização importante sobre o uso saudável de telas, tecnologias e mídias em creches, berçários e escolas.

A principal mensagem do documento é muito clara: a tecnologia pode fazer parte da educação, mas nunca deve substituir aquilo que é essencial para o desenvolvimento infantil.

Em sintonia com a Lei nº 15.100/2025, a recomendação é restringir o uso de celulares nas escolas — inclusive durante recreios e intervalos — às situações em que exista uma finalidade pedagógica clara e justificada. O objetivo é reduzir distrações, proteger a atenção e favorecer o aprendizado.

Para as crianças menores, especialmente na primeira infância, dos 0 aos 5 anos, a orientação é priorizar aquilo que realmente impulsiona o desenvolvimento: brincar, conversar, ouvir histórias, explorar o ambiente e interagir com outras pessoas.

A exposição excessiva às telas nessa fase pode estar associada a prejuízos no desenvolvimento da linguagem e das funções executivas, que incluem atenção, autocontrole, planejamento e capacidade de resolver problemas.

Isso não significa excluir completamente a tecnologia da infância. Quando utilizada com supervisão, intencionalidade e objetivos pedagógicos claros, ela pode ser uma ferramenta útil. O mais importante é que nunca comprometa pilares fundamentais da saúde, como o sono, a atividade física, as brincadeiras e as interações sociais presenciais.

Por que o excesso de telas preocupa os pediatras?

Nos primeiros anos de vida, o cérebro da criança passa por um desenvolvimento intenso.

É brincando, correndo, desenhando, ouvindo histórias, montando brinquedos e conversando que ela aprende. Essas experiências estimulam diferentes áreas do cérebro ao mesmo tempo e são fundamentais para o desenvolvimento da linguagem, da criatividade, da coordenação motora, da atenção e das habilidades sociais.

Quando grande parte do tempo livre é ocupada pelas telas, essas oportunidades diminuem.

Na adolescência, os desafios mudam. O excesso de celulares e redes sociais pode prejudicar o sono, a concentração, o rendimento escolar, a autoestima e até a saúde mental.

Por isso, o objetivo não deve ser eliminar a tecnologia da rotina, mas ensinar crianças e adolescentes a utilizá-la com equilíbrio.

Quais problemas o excesso de telas pode causar?

Nem toda criança que usa telas apresentará problemas. Mas, quando o tempo de exposição é excessivo ou começa a substituir atividades importantes, alguns sinais podem aparecer:

  • dificuldade para dormir;
  • irritabilidade;
  • dificuldade de concentração;
  • queda no rendimento escolar;
  • sedentarismo;
  • maior risco de sobrepeso e obesidade;
  • dores posturais e cansaço visual;
  • perda do interesse por brincadeiras;
  • menor convivência com a família;
  • dificuldade para controlar o tempo de uso dos aparelhos.

Mais importante do que contar horas é observar se a tela está ocupando o espaço de atividades essenciais para um desenvolvimento saudável.

O sono costuma ser o primeiro prejudicado

Muitos pais acreditam que deixar a criança assistir a um desenho ou usar o celular antes de dormir ajuda a relaxar. Na prática, muitas vezes acontece exatamente o contrário.

A luz emitida pelas telas pode atrasar a produção de melatonina, hormônio que ajuda a preparar o organismo para o sono. Além disso, vídeos, jogos e redes sociais mantêm o cérebro em estado de alerta justamente quando ele deveria começar a desacelerar.

O resultado pode ser uma criança que demora mais para dormir, acorda durante a noite ou desperta cansada no dia seguinte.

E dormir mal afeta praticamente tudo: humor, memória, aprendizado, concentração e comportamento.

Nenhuma tela substitui experiências reais

Nos primeiros anos de vida, o aprendizado acontece principalmente através da interação com o mundo. Brincadeiras ao ar livre, leitura compartilhada, jogos de montar, desenho, pintura, esportes e conversas em família estimulam o cérebro de uma forma que nenhuma tela consegue reproduzir.

Mesmo aplicativos educativos não substituem a interação humana, que continua sendo fundamental para o desenvolvimento da linguagem, da comunicação e das habilidades sociais.

E os adolescentes?

As redes sociais fazem parte da vida dos adolescentes e também podem trazer benefícios, como acesso à informação e facilidade de comunicação.

Mas elas aumentam a exposição à comparação constante, à busca por aprovação, ao cyberbullying e à pressão para estar sempre conectado.

Outro ponto importante é que o excesso de notificações e estímulos rápidos pode tornar mais difícil lidar com o tédio, manter a concentração e controlar o tempo de uso do celular.

Por isso, mais do que apenas fiscalizar, os pais precisam participar da vida digital dos filhos, conversar sobre segurança na internet e manter um diálogo aberto.

Quanto tempo de tela é recomendado?

Até 2 anos

Evitar telas, exceto em chamadas de vídeo com familiares.

Entre 2 e 5 anos

  • Pouco tempo de tela.
  • Conteúdo adequado para a idade.
  • Sempre com acompanhamento de um adulto.

Acima de 5 anos e adolescentes

Não existe um número mágico que sirva para todas as crianças. O mais importante é garantir tempo suficiente para:

  • brincar;
  • praticar atividade física;
  • estudar;
  • conviver com a família;
  • dormir adequadamente.

Como colocar limites sem transformar isso em uma guerra?

Algumas atitudes ajudam bastante:

  • estabeleça horários para o uso dos aparelhos;
  • evite telas durante as refeições;
  • retire celulares e tablets do quarto na hora de dormir;
  • incentive brincadeiras, leitura, esportes e atividades ao ar livre;
  • acompanhe o conteúdo que seu filho consome;
  • converse sobre os riscos da internet de acordo com a idade;
  • dê o exemplo.

As crianças aprendem muito mais pelo exemplo do que pelos discursos.

Se toda a família cria momentos livres de telas, fica muito mais fácil estabelecer hábitos saudáveis.

Situações comuns no consultório

“Doutor, meu filho só come assistindo a um desenho.”

Quando a tela passa a ser necessária para a criança aceitar a refeição, ela deixa de prestar atenção nos sinais de fome e saciedade. A refeição perde seu papel de aprendizado, convivência e descoberta de novos alimentos.

“Ele fica muito nervoso quando eu peço o celular.”

Uma irritação ocasional pode acontecer, especialmente quando os limites ainda estão sendo construídos. Mas reações muito intensas, frequentes e acompanhadas de perda de interesse por outras atividades merecem atenção.

“Meu filho não sabe mais brincar sozinho.”

A criança também precisa aprender a lidar com momentos de tédio. É justamente nesses momentos que surgem a imaginação, a criatividade e a capacidade de criar as próprias brincadeiras.

Quando é hora de procurar ajuda?

Vale conversar com o pediatra quando a criança ou o adolescente:

  • fica muito irritado ao desligar o aparelho;
  • perde o interesse por brincadeiras ou atividades de que gostava;
  • passa a dormir mal;
  • apresenta queda no rendimento escolar;
  • prefere ficar isolado usando o celular, tablet ou videogame;
  • deixa de realizar atividades importantes para permanecer conectado.

Cada criança tem uma rotina e necessidades diferentes. Por isso, a avaliação individualizada continua sendo a melhor forma de orientar cada família.

O equilíbrio é o melhor caminho

A tecnologia veio para ficar, e isso não é um problema.

O nosso desafio como pais não é criar filhos longe das telas, mas ensinar nossos filhos a usá-las com equilíbrio.

Quando a criança brinca, corre, conversa, lê, pratica atividade física, dorme bem e convive com a família, a tela deixa de ser a protagonista e passa a ocupar apenas o lugar que realmente deveria ter.

O celular está acrescentando algo à rotina do meu filho ou está substituindo aquilo que ele mais precisa viver?

Essa é uma pergunta simples, mas costuma ajudar os pais a encontrar o equilíbrio.

Se você percebe que o uso de telas está interferindo no sono, no comportamento, no aprendizado ou no desenvolvimento do seu filho, converse com o pediatra. A orientação individualizada é sempre o melhor caminho.

Foto de Sebastião Ferreira

Sebastião Ferreira

Dr. Sebastião Ferreira é médico pediatra dedicado ao cuidado integral da saúde infantil, com atuação clínica e hospitalar em Belém-PA. Possui Título de Especialista em Pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e formação em gestão em saúde, tendo concluído MBA em Gestão e Saúde pelo Insper em parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein (São Paulo).
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